O meu último dia de vida

Se eu morresse amanhã a cama ficaria por fazer, a roupa ficaria por lavar, as meias espalhadas no chão, os brinquedos e os livros fora das caixas e das estantes, o pequeno almoço intacto, os comprimidos prescritos para a depressão por tomar, a televisão por ligar, o relógio marcaria na mesma as nove horas, depois as dez horas e assim sucessivamente seguindo o seu percurso natural, sem nenhuma paragem pela minha morte, pois eu sou apenas uma formiga no meio de tantos gigantes.

Os gatos continuariam a miar esfomeados. As vozes dos vizinhos madrugadores prosseguiam sem alterações. Os post-its amarelos colocados forçosamente na porta do frigorífico, escritos com as mil e uma tarefas que teriam de ser rigorosamente cumpridas nos dias a seguir, ficariam também elas exactamente no mesmo sitio, sem serem lidas, sem serem realizadas, sem serem tão importantes como pareciam ser, a resposta ao email ficaria por dar, a troca de mensagens com a amiga não aconteceria, as memorias más finalmente esvoaçavam com o vento deixando a alma solta e leve, as boas permaneceriam até a uma próxima vida, o sol iria brilhar na mesma ou a chuva não iria cessar por mais uma morte…

No último dia da minha vida eu levantei-me ao som de Damien Rice, dei um beijo aos miúdos, fui trabalhar, eles foram para a escola, enviei mensagem ao companheiro para lhe relembrar o pagamento da factura da luz com um metódico até logo, deixei o frango a descongelar, o estendal com a roupa a secar, os ovos em cima do balcão para não me esquecer do bolo importante de aniversario, o lembrete digital da consulta no dentista às 17 horas desse dia…

O meu último dia de vida foi exactamente igual aos dias anteriores e aos dias que ainda viriam, rotineiro, exaustivo, angustiante, apressado, mediano…foi o meu último dia de vida e eu não sabia. Se eu soubesse, o que teria feito de diferente?

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